O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública lançaram uma campanha para cobrar dos candidatos às eleições de outubro de 2026 o compromisso de implementar, se eleitos, medidas concretas de redução da violência contra crianças e adolescentes no país.
“A violência dentro e fora de casa é a maior preocupação do Unicef nestas eleições”, afirmou o representante da organização no Brasil, Joaquim Gonzales-Aleman, em coletiva realizada na última quinta-feira (13). Segundo ele, a campanha busca colocar o tema no centro do debate eleitoral e cobrar respostas que não sejam simplistas.
A equipe do Unicef vai analisar os programas de governo apresentados por candidatos a presidente e a governador, avaliando as propostas voltadas ao enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes, incluindo o alto número de assassinatos nessa faixa etária. Além do diagnóstico, a organização pretende convidar cada candidato a assumir publicamente o compromisso de priorizar o combate às mortes intencionais de menores de 18 anos.
“Nossa ideia com esta campanha de advocacy é falar com todos os candidatos, principalmente em nível federal, para propor ideias e falar sobre a importância do tema”, explicou Aleman.
Mortes de crianças e adolescentes caem, mas seguem altas
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que as mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes recuaram 10,8% entre 2024 e 2025. Ainda assim, as 2.079 ocorrências registradas no último ano representam, em média, ao menos cinco óbitos diários. Do total de vítimas, 88% tinham entre 12 e 17 anos, com maioria negra, e 240 tinham até 11 anos.
“Os números têm impactos colaterais. Há, inclusive, uma certa banalização da violência contra as crianças e adolescentes. Daí a importância de enxergarmos nisto um problema estrutural do país”, afirmou a representante adjunta para Programas do Unicef no Brasil, Layla Saad.
Para o Unicef, o país já possui leis e programas de proteção consolidados, mas seus efeitos ainda não alcançam toda a população infantil. Por isso, a organização defende a aprovação de uma política nacional de prevenção à violência contra crianças e adolescentes, que defina responsabilidades entre União, estados e municípios, preveja fontes orçamentárias e permita ações coordenadas.
“Isto requer uma série de medidas. Não é uma abordagem baseada só na segurança pública, pois ela contempla as raízes, as causas do problema”, disse Layla, que criticou propostas de caráter punitivista, como a redução da maioridade penal.
Fórum questiona propostas de redução da maioridade penal
O sociólogo Cauê Martins, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, avalia que propostas como a redução da maioridade penal ignoram a realidade dos dados: entre 2016 e 2025, o número de adolescentes internados no sistema socioeducativo caiu cerca de 53%, passando de 26.450 para 12.203 — movimento oposto ao observado no sistema carcerário.
Segundo Martins, a transparência de dados é essencial para desmistificar percepções equivocadas sobre a violência contra crianças, como a ideia de que agressores sexuais costumam ser desconhecidos. “Em 2025, 65% dos estupros de vulneráveis ocorreram na residência das vítimas. A absoluta maioria dos abusadores é conhecida, sendo muitas vezes um parente”, concluiu.
(Redação ONG News)