Tilápia cresce 148% em dez anos e setor busca mais eficiência

3ª edição do Observatório do Peixe reúne evidências sobre bem-estar animal, produtividade e competitividade da cadeia brasileira
Pexels

A produção brasileira de tilápia cresceu 148,2% em dez anos, saltando de cerca de 285 mil toneladas, em 2015, para aproximadamente 707,5 mil toneladas em 2025. Hoje, a espécie já responde por 70% dos peixes produzidos no país, consolidando-se como o principal segmento da piscicultura nacional.

Depois de uma década marcada pela expansão da produção, ganho em escala, inovação e maior inserção nos mercados, o avanço da cadeia abre uma nova discussão: como continuar crescendo com mais eficiência, sustentabilidade, competitividade, transparência e bem-estar animal?

É essa reflexão que orienta a terceira edição do Observatório do Peixe, relatório produzido pela Alianima, organização sem fins lucrativos que trabalha em estreita colaboração com líderes da indústria alimentícia para identificar e abordar os principais desafios enfrentados pela cadeia de produção animal. Com foco na tilapicultura, o material reúne evidências científicas, informações técnicas e análises do setor para discutir como o bem-estar dos peixes se relacionacom o desenvolvimento e a expansão da atividade nos mercados nacional e internacional.

O novo cenário ocorre em um momento em que a cadeia também se torna mais exposta às transformações do mercado internacional. Em 2025, a tilápia respondeu por cerca de 92% do volume exportado pela piscicultura brasileira. Ao mesmo tempo, mudanças em tarifas dos Estados Unidos — principal destino das exportações brasileiras —, o aumento da concorrência no mercado nacional, e a busca por novos destinos comerciais colocam eficiência e diferenciação entre os principais desafios do setor.

“A tilapicultura brasileira alcançou um elevado nível de desenvolvimento e reúne condições para consolidar o Brasil entre os principais produtores mundiais de pescado cultivado. Para manter essa trajetória, será cada vez mais importante fortalecer um ambiente favorável à inovação, à pesquisa, à transformação digital, à biossegurança, à qualificação dos produtores e à ampliação do acesso aos mercados, por meio de políticas públicas que promovam competitividade e sustentabilidade”, afirma Luciene Mignani, diretora de Desenvolvimento e Inovação da Secretaria Nacional de Aquicultura, do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA).

O que a ciência já sabe sobre produção e bem-estar de tilápias

Embora a literatura sobre bem-estar de tilápias ainda seja mais limitada do que em outras áreas da produção animal, os estudos já vêm identificando relações positivas relevantes entre bem-estar animal e  crescimento, qualidade do filé, sobrevivência, saúde e perdas ao longo da cadeia de produção.

O levantamento classifica como mais consistentes as evidências relacionadas a estresse, transporte, pré-abate, crescimento e densidade de alojamento. Já temas como enriquecimento ambiental, exercício e nutrição funcional apresentam evidências consideradas promissoras, enquanto saúde e sobrevivência ainda demandam maior aprofundamento. Quando o assunto trata dos impactos econômicos das melhorias de bem-estar, a literatura disponível permanece muito limitada.

“Quando falamos em bem-estar de tilápias, não estamos tratando de uma variável isolada dentro da produção. Condições de manejo, alimentação, densidade, transporte, qualidade da água e práticas de abate se relacionam a diferentes indicadores de saúde, desempenho e qualidade do pescado. A ciência já avançou bastante em algumas dessas relações, mas também precisamos reconhecer onde ainda faltam dados mais concretos, principalmente para medir com precisão os impactos econômicos diretos dessas melhorias”, explica Caroline Maia, Especialista em Peixes na Alianima.

Bem-estar animal: custo adicional ou estratégia de produção?

Adotar melhorias relacionadas ao bem-estar pode exigir investimentos em capacitação, monitoramento, adequações de manejo, mudanças nos sistemas produtivos e novas ferramentas de gestão. Em contrapartida, o relatório identifica retornos potenciais associados à redução de perdas, maior previsibilidade, eficiência operacional, qualidade e diferenciação do produto.

Enquanto investimentos iniciais e custos operacionais podem ser calculados diretamente, benefícios como perdas evitadas, ganhos futuros de eficiência, valor agregado e novas oportunidades de mercado são mais difíceis de estimar. Por isso, o relatório destaca que a precisão sobre o retorno econômico dessas mudanças ainda permanece em aberto.

Para Beatriz Veloso, Gerente de Relações Corporativas da Alianima, essa lacuna não impede que empresas comecem a inserir o tema em suas estratégias de médio e longo prazo: “Para as empresas, essa discussão não deve começar apenas quando surgir uma nova exigência de mercado. Incorporar gradualmente indicadores de bem-estar, monitorar resultados e entender onde existem oportunidades de melhoria permite que o setor produza conhecimento sobre a própria operação e esteja mais preparado para essas mudanças futuras. É uma agenda que envolve responsabilidade, mas também gestão, transparência e capacidade de antecipação.”

Competitividade no cenário de transformação

Em um cenário de maior integração aos mercados globais, envolvendo mudanças em tarifas, entrada de novos fornecedores externos e busca por mais destinos comerciais, competir passa a envolver atributos que vão além do preço, incluindo qualidade, consistência, confiança nos processos produtivos, transparência e capacidade de diferenciação. Essa mudança também aparece na percepção de representantes da própria cadeia produtiva.

“Hoje, a competitividade do setor depende não apenas da eficiência produtiva, mas também da capacidade de demonstrar compromisso com a qualidade, a segurança alimentar, a responsabilidade socioambiental e a transparência. A qualidade do produto final é resultado de todas as etapas do processo produtivo. Aspectos relacionados ao manejo, à sanidade, ao transporte e ao processamento influenciam não apenas os indicadores produtivos, mas também a qualidade do pescado que chega ao consumidor”, afirma Valério Angelozi, proprietário da Piscicultura Super Fish e presidente da Peixe Paraná (Associação Paranaense de Aquicultura).

Antecipar mudanças para construir oportunidades

Entre os caminhos apresentados pelo relatório está a incorporação gradual do bem-estar à gestão cotidiana, com indicadores objetivos, acompanhamento contínuo, capacitação e integração entre os diferentes elos da cadeia. A proposta é que as empresas passem de uma postura reativa para uma lógica de antecipação, procurando acompanhar tendências antes que as novas demandas se transformem em exigências consolidadas de mercado.

O material propõe uma trajetória que passa por perceber mudanças, antecipar tendências, assumir compromissos públicos, implementar melhorias e monitorar resultados, com o objetivo de construir uma cadeia mais preparada, competitiva e resiliente.

“O avanço dessa agenda não depende de uma solução única. O caminho passa por produzir mais conhecimento,  aplicar melhorias validadas, monitorar seus efeitos e ampliar a colaboração entre pesquisadores, produtores, empresas e demais atores do setor. Quanto mais cedo essa construção começar, maior será a capacidade da tilapicultura brasileira de se adaptar aos próximos desafios”, acrescenta Caroline Maia.

Além de produzir conhecimento técnico sobre o tema, a Alianima oferece consultoria, suporte técnico e parcerias às empresas de forma gratuita, buscando apoiar a implementação de práticas de bem-estar animal, com orientação baseada em evidências científicas.

Clique aqui para acessar a 3ª edição do Observatório do Peixe.

Saiba mais em: alianima.org|  observatorioanimal.com.br

(Assessoria de Imprensa)

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