Por que o futebol brasileiro cria poucos institutos sociais?

Uma análise sobre filantropia, governança e o legado dos atletas no Brasil

O futebol brasileiro produz ídolos admirados em todo o mundo. A cada geração, atletas saem de contextos vulneráveis, conquistam reconhecimento internacional e acumulam patrimônios que transformam suas trajetórias pessoais e familiares. Mas uma pergunta permanece pouco explorada: por que tão poucos desses casos de sucesso se convertem em organizações sociais duradouras?

Em um país marcado por profundas desigualdades, o futebol é frequentemente apresentado como símbolo de ascensão social. No imaginário popular, os gramados representam uma das principais oportunidades para jovens periféricos mudarem de vida. No entanto, quando observamos os dados, percebemos que essa narrativa alcança apenas uma parcela extremamente reduzida dos atletas que tentam seguir carreira profissional.

Mais do que discutir o sucesso esportivo, vale refletir sobre o que acontece depois dele. Como os jogadores que chegam ao topo utilizam sua influência, seus recursos e sua capacidade de mobilização para gerar impacto coletivo? E por que o Brasil ainda possui tão poucas fundações e institutos sociais liderados por atletas?

O futebol continua sendo uma exceção, não uma regra de mobilidade social

Pesquisas publicadas pelo portal Alma Preta, pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e por estudos da Revista Brasileira de Ciências do Esporte mostram que o futebol aparece para muitos jovens negros e periféricos como uma das poucas perspectivas de ascensão econômica diante das limitações de acesso à educação, cultura e oportunidades profissionais.

A realidade, porém, é marcada por um funil extremamente restritivo.

Embora o Brasil possua milhares de atletas profissionais registrados, apenas uma pequena elite alcança os salários milionários normalmente associados à carreira de jogador de futebol. O topo da pirâmide concentra renda, visibilidade e influência em um grupo reduzido de atletas que conseguem atuar em grandes clubes nacionais e internacionais.

Esse cenário torna ainda mais relevante o debate sobre responsabilidade social. Se poucos chegam ao topo, aqueles que conseguem alcançar esse nível acumulam também uma capacidade singular de mobilização e transformação social.

Os institutos criados por atletas ainda são exceção

Ao analisar o cenário brasileiro, encontramos poucas iniciativas sociais estruturadas e permanentes criadas por jogadores de futebol.

Fundação Gol de Letra

Criada por Raí e Leonardo, a Fundação Gol de Letra é considerada uma das maiores referências de gestão social ligada ao esporte no Brasil. Com quase três décadas de atuação, desenvolve projetos em São Paulo e no Rio de Janeiro, operando com planejamento estratégico, indicadores de impacto e prestação de contas periódica.

Sua trajetória demonstra como a profissionalização pode garantir continuidade institucional e ampliar resultados ao longo do tempo.

Fundação Fenômenos

Idealizada por Ronaldo Nazário, atua no desenvolvimento de lideranças sociais e na articulação com empresas e parceiros estratégicos. A organização mantém processos formais de governança e divulgação de resultados.

Instituto Bola Pra Frente

Fundado por Jorginho, ex-jogador da Seleção Brasileira, consolidou uma atuação territorial de longo prazo no Complexo do Muquiço, no Rio de Janeiro, utilizando o esporte como ferramenta educacional e de desenvolvimento comunitário.

Instituto Vini Jr.

Representa uma nova geração de organizações sociais ligadas ao esporte. Seu foco está na inovação educacional, utilizando tecnologia e metodologias gamificadas para apoiar a aprendizagem em escolas públicas.

Instituto Neymar Jr.

Mantém um complexo educacional e esportivo na Praia Grande, atendendo milhares de crianças e adolescentes. Embora possua grande alcance e reconhecimento público, especialistas do setor apontam desafios relacionados à divulgação periódica de relatórios de atividades e dados financeiros, elementos considerados essenciais para fortalecer a confiança pública e a captação de recursos.

Pelé Foundation

Criada em 2018, tem atuação internacional voltada para educação e combate à pobreza. Embora carregue o nome do maior ícone do futebol brasileiro, sua estrutura foi organizada fora do Brasil, com foco global.

O desafio da transparência no terceiro setor esportivo

Ao observar essas iniciativas, uma questão emerge de forma recorrente: a transparência.

A profissionalização de organizações sociais não depende apenas de boas intenções ou da relevância de sua causa. Ela exige mecanismos permanentes de governança, prestação de contas, monitoramento de resultados e comunicação transparente com a sociedade.

Essa necessidade se torna ainda mais importante quando analisamos os dados sobre comportamento doador no Brasil.

Segundo pesquisas do Instituto MOL, a falta de confiança é um dos principais fatores que afastam potenciais doadores. Mais da metade das pessoas que deixam de contribuir financeiramente com organizações sociais afirmam não ter segurança sobre a destinação dos recursos.

Nesse contexto, relatórios de atividades, demonstrações financeiras e indicadores de impacto deixam de ser apenas exigências administrativas. Eles se tornam instrumentos estratégicos para fortalecer credibilidade e ampliar a mobilização social.

O que se demonstra ser desafiador para as organizações que estão listadas neste artigo. De todas, somente a Fundação Gol de Letra e a Fundação Fenômenos contam com relatórios anuais e página de sustentabilidade, demonstrando maior nível de maturidade organizacional.

O potencial de mobilização dos atletas ainda está subaproveitado

Os mesmos estudos revelam outro dado relevante: uma parcela significativa dos brasileiros afirma que faria uma doação se fosse convidada por um atleta que admira.

Esse resultado demonstra algo poderoso. O futebol não mobiliza apenas torcedores. Ele mobiliza confiança, pertencimento e engajamento.

Poucos setores da sociedade possuem porta-vozes com alcance comparável ao dos grandes jogadores. Um único atleta pode reunir dezenas de milhões de seguidores e influenciar públicos de diferentes regiões, faixas etárias e classes sociais.

Quando essa capacidade de mobilização é direcionada para causas estruturadas, o potencial de impacto social cresce exponencialmente. 

Clubes de futebol também desempenham um papel importante

A responsabilidade social no futebol não se limita aos atletas.

Diversos clubes brasileiros vêm ampliando suas iniciativas voltadas para educação, cidadania, inclusão e combate às desigualdades. Em muitos casos, essas ações surgem como resultado do posicionamento institucional das organizações e das demandas apresentadas por suas próprias torcidas.

Clubes como Bahia, Internacional, Grêmio e Avaí têm desenvolvido projetos permanentes que ultrapassam o universo esportivo e fortalecem sua conexão com a comunidade.

Ainda assim, existe uma diferença importante entre a atuação institucional dos clubes e o legado individual dos atletas. Enquanto os clubes respondem a estratégias organizacionais de longo prazo, os jogadores possuem a oportunidade de construir iniciativas diretamente ligadas às suas histórias de vida e aos territórios que ajudaram a formar suas trajetórias.

O futuro passa pela profissionalização da filantropia esportiva

Historicamente, grande parte das ações sociais associadas ao futebol brasileiro acontece de forma pontual: campanhas beneficentes, arrecadações emergenciais e eventos solidários.

Essas iniciativas são importantes e frequentemente atendem necessidades urgentes. Porém, sozinhas, não produzem transformações estruturais.

Os desafios sociais brasileiros exigem soluções permanentes, capazes de combinar recursos financeiros, gestão qualificada, metas de longo prazo e mecanismos de avaliação de impacto.

Transformar campanhas em plataformas contínuas de desenvolvimento social talvez seja o próximo passo da filantropia ligada ao esporte no Brasil.

O país que forma alguns dos maiores jogadores do mundo também possui condições de formar uma nova geração de lideranças sociais capazes de utilizar sua influência para fortalecer a cultura de doação, ampliar a confiança no terceiro setor e construir legados que permaneçam muito além do apito final.

O que define um legado?

Quando a carreira termina, os títulos permanecem nos registros e na memória dos torcedores. Mas o impacto social construído ao longo do caminho pode permanecer por gerações.

A discussão sobre transparência, governança e investimento social no futebol não é apenas uma conversa sobre organizações sociais. É uma reflexão sobre o tipo de legado que atletas, clubes e torcidas desejam deixar para o país.

E você, acredita que os grandes nomes do futebol brasileiro poderiam desempenhar um papel mais relevante no fortalecimento da cultura de doação e da filantropia no Brasil?

Carol Farias é jornalista, produtora audiovisual e especialista em comunicação para impacto social. Mestre em Comunicação Digital e Cultura de Dados na FGV, desenvolveu pesquisa voltada à comunicação de riscos, mudanças climáticas e mobilização social em ambientes digitais. Atua há mais de uma década com estratégias de comunicação para organizações da sociedade civil, com passagens por organizações como ABCR, Observatório do 3º Setor e Prosas. Também atua como criadora de conteúdo e palestrante, protagonista em mais de 100 palestras em todas as regiões do Brasil, assim como em Portugal e no Panamá, compartilhando reflexões sobre cultura de doação, o papel das plataformas digitais, dos algoritmos e das redes sociais na formação de opinião, mobilização social e fortalecimento de causas. É líder de marketing da BC Marketing, agência especializada em comunicação para causas. É autora do podcast Minha História de Doação.

*Andressa Trivelli é empreendedora social, consultora e facilitadora com mais de duas décadas de experiência no desenvolvimento de iniciativas de impacto socioambiental. Co-fundadora da Rede Tekoha, um dos primeiros negócios sociais do Brasil, atualmente lidera o Canal Sabiar, dedicado ao uso ético e estratégico da inteligência artificial no terceiro setor, e a Philantropics, consultoria especializada em filantropia estratégica e investimentos sociais de longo prazo no Sul Global. É bacharel pela PUC-SP, mestre em Administração pela FGV-EAESP e especialista em Gestão de Mídias Sociais e Inteligência de Negócios pela ESPM.

Ao longo de sua trajetória, apoiou organizações, empresas e institutos na transformação de estratégias em ação, fortalecendo capacidades, desenvolvendo equipes e estruturando projetos com propósito. Atuou como consultora e parceira de organizações como Social Good Brasil, Impact Hub, Instituto Elos, Artesol, Anjos do Brasil, ponteAponte e Aliança Empreendedora, além de conduzir projetos com apoio de instituições como BID, ICE, Itaú Cultural, Natura, Fundação Volkswagen, Instituto Assaí, SESC e Standard Chartered Foundation.

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