A captação de recursos no terceiro setor brasileiro está mais profissionalizada, mas ainda enfrenta desafios relacionados à valorização da carreira, diversidade e saúde mental. É o que mostra a 5ª edição do Censo ABCR, principal levantamento sobre os profissionais responsáveis por mobilizar recursos para organizações da sociedade civil (OSCs). O estudo revela que 35% dos captadores têm mais de dez anos de experiência, percentual que era de 21% em 2017, indicando o amadurecimento da profissão no país.
Realizado pela Associação Brasileira dos Captadores de Recursos (ABCR), em parceria com a Conexão Captadoras, o levantamento também aponta um perfil de profissionais altamente qualificados. Entre os participantes, 92% possuem ensino superior completo ou pós-graduação, com formação em áreas como Administração, Comunicação, Direito, Pedagogia e Serviço Social. As mulheres seguem como maioria na profissão, representando cerca de dois terços dos respondentes.
Outro dado que evidencia a consolidação da atividade é o crescimento da formalização. Desde que a ocupação foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), em 2021, 22% dos profissionais contratados pelo regime CLT já estão registrados oficialmente como captadores de recursos.
O estudo também mostra que investir na qualificação profissional traz resultados concretos para as organizações. Captadores que participaram de cursos, eventos e iniciativas promovidas pela ABCR captaram, em média, R$ 15,2 milhões, enquanto aqueles que nunca participaram dessas ações alcançaram média de R$ 4,2 milhões. A diferença também aparece na remuneração: entre os participantes das iniciativas da associação, o salário médio foi de R$ 7.969, ante R$ 2.846 dos demais profissionais.
Apesar dos avanços, o levantamento revela que a captação de recursos ainda não ocupa um espaço estratégico em muitas organizações. Cerca de 35% dos respondentes afirmam não receber remuneração específica pela atividade, acumulando a função com cargos de direção, conselhos ou trabalho voluntário. Nas organizações de menor porte, esse índice sobe para 44%. Além disso, 27% dos participantes são dirigentes que também exercem diretamente a captação de recursos, conciliando diferentes responsabilidades.
Outro ponto de atenção é a remuneração. Embora o salário médio estimado da categoria seja de R$ 8.414, o estudo aponta que, considerando a inflação acumulada desde 2012, houve perda aproximada de 15% do poder de compra dos profissionais. Também foi identificado um crescimento dos modelos de remuneração híbridos, que combinam salário fixo e variável, indicando maior estabilidade nas relações de trabalho.
Pela primeira vez, o Censo ABCR também investigou aspectos relacionados à saúde mental e à diversidade. Quase metade dos profissionais (48%) afirma que a atividade impacta negativamente seu bem-estar emocional, principalmente em razão da pressão constante por resultados e da frequência de negativas durante os processos de captação.
Segundo Ana Flavia Godoi, fundadora da Conexão Captadoras, o tema precisa ganhar espaço no debate sobre a profissão. “A captação de recursos é uma profissão extremamente demandante. Lidamos com muitas frustrações e recebemos muitos ‘nãos’ antes de chegar aos ‘sim’. Por isso, precisamos pensar em formas de apoiar os profissionais para que consigam lidar melhor com os desafios da atividade.”
A pesquisa também evidencia desigualdades dentro da profissão. Captadores não brancos recebem, em média, R$ 7.305 por mês, enquanto profissionais brancos têm remuneração média de R$ 8.938. Além da diferença salarial, profissionais não brancos captam, em média, 47% menos recursos. Entre os profissionais LGBTQIA+, que representam cerca de 10% da amostra, 60% relatam enfrentar barreiras relacionadas à identidade durante a atuação profissional.
Mesmo diante desses desafios, o levantamento aponta uma perspectiva positiva para o futuro da área. Mais da metade dos entrevistados (56%) acredita que a captação de recursos vive um momento favorável no Brasil, enquanto 68% demonstram otimismo em relação à própria carreira. Para a ABCR, os dados reforçam a necessidade de ampliar investimentos em desenvolvimento institucional e reconhecer a captação de recursos como uma área estratégica para garantir a sustentabilidade das organizações da sociedade civil.
(Redação ONG News)