MAPA admite não haver cadeia produtiva de jumentos no Brasil

Documento oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária reconhece que animais destinados ao abate não são oriundos de fazendas de criação, diferentemente do que afirmam abatedouros de jumentos

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) reconheceu, em documento oficial, que não existe no Brasil uma cadeia produtiva estruturada de jumentos destinados ao abate para exportação de peles à China. A informação consta em resposta enviada ao deputado federal Bruno Ganem (PODEMOS-SP) após questionamentos apresentados, em outubro de 2025, ao Ministério sobre o abate de jumentos no país e o comércio internacional de peles.

Segundo o próprio MAPA, diferentemente do que ocorre em setores organizados, como os de bovinos, aves e suínos, não há no país um sistema estruturado de criação, recria, engorda e abate desses animais. “O que ocorre é o recolhimento de animais criados de forma esparsa”, afirma o texto elaborado pela Secretaria de Defesa Agropecuária.

O documento também reconhece que os animais destinados ao abate são, em sua maioria, “predominantemente de descarte”. Na prática, os jumentos abatidos no país são descritos como “animais de trabalho descartados ou abandonados ao fim de sua vida produtiva e sem valor comercial”. Nesse contexto, os abatedouros localizados na Bahia recolhem os animais para o abate sem informações adequadas de rastreabilidade e sem garantias mínimas de biossegurança, entre outros problemas apontados por especialistas.

Outro ponto destacado pelo MAPA diz respeito às fragilidades no controle da origem dos animais. Conforme o documento, a Guia de Trânsito Animal (GTA) apresentada durante os transportes “na maioria das vezes não é a origem de todos os animais transportados”, podendo indicar apenas locais temporários de reunião de animais recolhidos em diferentes regiões.

Segundo José Roberto Lima, médico veterinário e Doutor em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com estágio em Saúde Global e Ambiental pela University of Florida, a prática consiste em reunir os animais em pontos provisórios antes de destiná-los ao abate, para formar lotes de transporte. “Muitas vezes, esses jumentos permanecem nesses locais em condições precárias, sem acesso adequado à água, alimentação ou cuidados veterinários”, afirma.

A manifestação do Ministério reforça alertas feitos por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), UFBA e Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de organizações de proteção animal como a The Donkey Sanctuary, o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e a Frente Nacional em Defesa dos Jumentos, sobre o caráter extrativista da atividade ligada ao comércio de peles, principalmente, para a China. O país usa o colágeno extraído da pele do jumento na produção de ejiao — produto vendido como um “revigorante físico” para os consumidores, sem, contudo, uma comprovação científica da sua eficiência.

De acordo com o cruzamento de dados do MAPA, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do sistema Agrostat, o extrativismo levou o Brasil a perder 94% de sua população de jumentos entre 1996 e 2025. Em termos práticos, de cada 100 animais existentes na década de 1990, apenas seis permanecem atualmente.

Para especialistas que acompanham o tema, o reconhecimento oficial da inexistência de uma cadeia produtiva estruturada reforça os argumentos pela proibição definitiva do abate de jumentos no Brasil, sob o risco de extinção da espécie nos próximos anos. “O próprio MAPA admite que não existe criação organizada de jumentos no país. Isso desmonta o argumento de que há uma atividade pecuária sustentável relacionada aos jumentos”, afirma Patricia Tatemoto, PhD em Ciências pela USP.

O documento do MAPA também menciona a “inevitável correlação de baixa qualidade dos animais adquiridos”, justamente por se tratarem de animais descartados. Isso amplia o risco reputacional ao país, especialmente em um momento sensível das negociações do acordo Mercosul–União Europeia, no qual o Brasil já enfrenta embargo setorial e desqualificações sanitárias que poderão comprometer exportações para a União Europeia a partir de setembro. O texto ainda detalha normas relacionadas ao transporte, manejo, pré-abate, abate humanitário e procedimentos de fiscalização realizados pelos Serviços de Inspeção Federal (SIFs), mas não diz se os envolvidos nessa atividade cumprem essas obrigações.

Segundo Gislane Brandão, advogada e coordenadora da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, a atividade se sustenta sobre a exploração de animais historicamente utilizados no trabalho rural e que hoje enfrentam riscos crescentes de abandono e maus-tratos. “Isso expõe não apenas a vulnerabilidade dos jumentos, mas também a ausência de sustentabilidade, a falta de políticas públicas voltadas aos cuidados com esses animais, o desrespeito à Constituição Federal, e o extrativismo do abate”, diz.

(Assessoria de Imprensa)

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