Instituto Sementes cria fundo voltado ao cuidado de mães solo

Projeto oferece experiências de descanso, apoio psicológico e viagens para mulheres que dedicam a vida ao cuidado dos filhos e da comunidade
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Em um país onde milhões de mulheres sustentam sozinhas suas famílias e acumulam jornadas exaustivas de trabalho, cuidado e sobrevivência, encontrar tempo para si mesma costuma ser um privilégio distante. Foi para mudar, ainda que por alguns dias, essa realidade que nasceu o fundo Respira, Se Não Pira, iniciativa do Instituto Sementes.

O projeto transforma doações em experiências de autocuidado para mulheres que vivem em contextos de vulnerabilidade social. Os recursos financiam desde massagens, cuidados estéticos e momentos de relaxamento até viagens e acompanhamento psicológico, oferecendo a essas mães algo raro em suas rotinas: a oportunidade de serem cuidadas.

A iniciativa surgiu a partir da ONG que, há nove anos, desenvolve projetos voltados para crianças e adolescentes em favelas e comunidades periféricas. Durante esse trabalho, a equipe identificou que uma grande parte dos jovens atendidos é criada por mães solo que carregam sozinhas a responsabilidade financeira, emocional e doméstica da família.

Para Alexandre Santos, presidente da organização, não é possível falar em romper ciclos de pobreza sem olhar para quem sustenta a base familiar. “Nosso propósito é transformar a realidade de crianças e adolescentes por meio da educação e da geração de oportunidades. Mas percebemos que não existe mudança duradoura sem fortalecer também quem está por trás delas. Em muitos casos, essas mães passam anos colocando suas próprias necessidades em segundo plano para garantir o bem-estar dos filhos”, afirma.

A relação de Alexandre com a causa também é pessoal. Filho de uma mãe solo periférica, ele viu de perto os desafios enfrentados por mulheres que dedicam a vida à criação dos filhos enquanto abrem mão dos próprios sonhos, do descanso e do autocuidado.

“Minha mãe criou seis filhos sozinha trabalhando como empregada doméstica. Eu cresci vendo o peso que ela carregava e quantas coisas precisou deixar para depois. O fundo nasceu desse entendimento de que essas mulheres também precisam ser vistas, acolhidas e cuidadas”, diz.

O projeto busca fortalecer a autoestima e a saúde emocional das participantes. Após as ações de autocuidado, as mães ainda recebem acompanhamento psicológico durante três meses, ampliando o impacto da iniciativa para além de um único dia.

Segundo a organização, os resultados aparecem nos relatos das próprias participantes. Muitas delas afirmam nunca ter vivido uma experiência semelhante. “A frase que mais ouvimos é: ‘Nunca ninguém cuidou de mim desse jeito’. Parece simples, mas revela uma realidade muito profunda. São mulheres acostumadas a cuidar de todos ao redor, mas que raramente recebem esse mesmo cuidado”, conta Alexandre.

Atualmente, as beneficiadas são selecionadas entre mulheres que vivem nas comunidades atendidas pelos projetos do Instituto Sementes. Uma delas é Edvania, moradora da Favela do Jardim Soeiro, em Ferraz de Vasconcelos (SP), mãe solo de quatro filhos e liderança comunitária reconhecida por seu trabalho em defesa de crianças, adolescentes e mulheres da região.

Mesmo convivendo com lúpus, uma doença autoimune, Edvania dedica grande parte da sua rotina ao apoio de famílias da comunidade. Neste ano, ela foi escolhida para viver uma experiência que carregava como sonho desde a infância: viajar de avião pela primeira vez.

Por meio do projeto, ela passou quatro dias em um resort no interior paulista, uma experiência que emocionou a equipe do projeto. “Ela nos disse que acreditava que morreria sem nunca entrar em um avião. Também falou sobre como nunca tinha conseguido reservar um momento para cuidar dos próprios cabelos, da própria pele ou simplesmente descansar sem culpa. São falas que mostram o quanto o autocuidado ainda é um direito distante para muitas mulheres”, relembra Alexandre.

A experiência reforçou uma convicção que move a organização: descanso também é uma questão de justiça social.

Embora o tema ainda gere resistência, especialmente entre pessoas que acreditam que recursos sociais devem ser direcionados exclusivamente para necessidades básicas, o Instituto defende que garantir momentos de lazer, descanso e recuperação emocional é parte fundamental da construção de uma vida digna. “Viajar, descansar ou ter acesso ao autocuidado ainda é um privilégio para a maioria das mães periféricas. Mas acreditamos que essas experiências também transformam vidas. Quando fortalecemos a autoestima e a saúde emocional dessas mulheres, fortalecemos toda a família”, afirma Alexandre.

Para garantir a continuidade da iniciativa, o Instituto Sementes conta com o apoio da Solidare Travel, agência de turismo de impacto social criada para financiar projetos da organização. Atualmente, 10% do lucro obtido com a comercialização de viagens, passagens e serviços corporativos é destinado ao fundo Respira, Se Não Pira.

A meta é ampliar o alcance da iniciativa nos próximos anos. O objetivo é viabilizar ao menos seis viagens anuais e beneficiar uma mãe por mês com ações de autocuidado e acolhimento psicológico.

Para saber mais sobre o projeto e doar, acesse Instituto Sementes.

(Redação ONG News)

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