Estudo mostra como desigualdades afetam juventudes vulneráveis no Brasil

Levantamento reúne análises sobre educação e trabalho de 13 perfis de jovens e aponta desafios no acesso a direitos e oportunidades
Pixabay

Um estudo lançado nesta terça-feira (26), em Brasília (DF), reuniu análises sobre os desafios enfrentados por diferentes perfis de juventudes brasileiras em situação de vulnerabilidade. Intitulado “Juventudes Brasileiras Minorizadas: análises de educação e trabalho para incidência em políticas públicas”, o material aborda barreiras relacionadas ao acesso à educação, ao trabalho e a direitos básicos.

Realizado pela Fundação Roberto Marinho, Itaú Educação e Trabalho e Iede, em parceria com o UNICEF, o estudo analisou 13 grupos de juventudes, entre eles jovens negros, indígenas, quilombolas, rurais, LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, jovens mães, refugiados e adolescentes em situação de trabalho infantil ou em medidas socioeducativas.

O material é composto por 14 artigos elaborados por especialistas e relatos de jovens de diferentes regiões do país. A publicação também analisa políticas públicas existentes e aponta lacunas relacionadas à proteção social, inclusão e acesso a oportunidades.

Segundo dados da PNAD Contínua 2025, do IBGE, o Brasil possui mais de 46,5 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Entre as juventudes em situação de maior vulnerabilidade, predominam trajetórias marcadas por atraso ou interrupção escolar, baixos níveis de aprendizagem, informalidade e dificuldade de acesso ao trabalho digno.

O estudo aponta que raça e condição socioeconômica estão entre os principais fatores associados às desigualdades enfrentadas pelos jovens brasileiros. Dados apresentados na publicação mostram que 11,9 milhões de jovens vivem em situação de pobreza e que, entre os jovens em extrema pobreza, 74,9% são negros.

Os impactos também aparecem nos indicadores educacionais. Segundo a PNAD Contínua 2025, o país tem 7,9 milhões de jovens fora da escola sem concluir a educação básica, o equivalente a 17% dessa população. Entre eles, sete em cada dez são negros.

A pesquisa também destaca obstáculos enfrentados no cotidiano, como dificuldade de acesso à internet, necessidade de conciliar estudo e trabalho, longos deslocamentos e inserção precoce em ocupações precárias.

Entre os jovens indígenas, mais da metade vive fora das terras indígenas e enfrenta índices mais elevados de analfabetismo e exclusão escolar. Já entre jovens quilombolas, o estudo aponta que 87% vivem fora de suas comunidades de origem em busca de acesso à educação e trabalho.

No caso das juventudes rurais, o levantamento mostra maior exclusão escolar e informalidade no mercado de trabalho. Enquanto 33% dos jovens do campo estão fora da escola sem concluir a educação básica, nas áreas urbanas o índice é de 16,5%.

A publicação também chama atenção para desafios enfrentados dentro do ambiente escolar, como violência e bullying contra estudantes LGBTQIAPN+, falta de acessibilidade para jovens com deficiência e os impactos da maternidade na adolescência sobre a permanência escolar.

Segundo o estudo, estudantes da rede pública, majoritariamente pretos, pardos e de baixa renda, concentram piores indicadores de aprendizagem e maiores taxas de insucesso escolar em comparação aos alunos da rede privada.

O levantamento ainda destaca que, entre jovens com deficiência, o analfabetismo atinge 11,7%, percentual superior ao registrado entre pessoas sem deficiência, de acordo com dados da PNAD Contínua 2022.

Outro ponto abordado é a baixa participação feminina nas áreas STEAM — Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. Embora as mulheres representem 55% dos jovens com ensino superior inseridos no mercado de trabalho, ocupam apenas 38% dessas áreas.

O estudo também traz relatos de jovens que passaram pelo sistema socioeducativo, vivenciaram trabalho infantil ou enfrentam dificuldades relacionadas à condição de refugiados no Brasil. Segundo a pesquisa, adolescentes em medidas socioeducativas apresentam defasagem escolar significativa, enquanto jovens refugiados lidam com obstáculos como barreiras linguísticas e dificuldade para validação de documentos.

“Por trás dos indicadores existem trajetórias reais, sonhos interrompidos e desafios cotidianos muitas vezes atravessados por desigualdades persistentes”, afirmou Rosalina Soares, superintendente de conhecimento da Fundação Roberto Marinho.

Para Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede, o estudo amplia o olhar sobre diferentes realidades juvenis no país. “Há uma diversidade de juventudes, com características específicas, que merece mais atenção. Somente com esse olhar direcionado poderemos avançar rumo a mais justiça social e ampliação de oportunidades para os jovens”, destacou.

(Redação ONG News)

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