As organizações da sociedade civil brasileiras estão colocando cada vez mais fichas nos doadores individuais para driblar a instabilidade financeira, mas essa aposta esbarra em um problema que os próprios dados do setor já revelam: o grupo de brasileiros que doa está diminuindo. É o que mostra o cruzamento entre dois levantamentos recentes sobre filantropia no país.
O Panorama das ONGs: capítulo Brasil, estudo do IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) em parceria com a CAF (Charities Aid Foundation), aponta que a sustentabilidade financeira é o desafio central para 66% das organizações brasileiras. Para lidar com isso, as ONGs têm diversificado suas fontes de receita – em média, 3,9 por organização -, e os doadores individuais aparecem como a principal origem desses recursos.
O problema é que essa base está encolhendo. Segundo o World Giving Report 2026, também assinado pela CAF, a participação de doadores no Brasil caiu de 62% para 59% em 2025. Ou seja: no mesmo período em que as ONGs reforçam a dependência de pessoas físicas para se manterem de pé, a fatia da população disposta a doar está diminuindo, o que significa mais organizações disputando o apoio de menos gente.
O levantamento global, que ouviu mais de 60 mil pessoas em 105 países, também ajuda a entender por que essa retração acontece. Segundo a pesquisa, 63% dos entrevistados em todo o mundo afirmam que mais transparência sobre a gestão das organizações aumentaria sua disposição para doar, e 47% querem entender melhor os resultados alcançados pelas iniciativas que apoiam. No Brasil, 27% dos doadores disseram ter sido influenciados a doar pela cobertura da mídia, um indício de que informação e prestação de contas pesam tanto quanto a causa em si na hora de abrir a carteira.
Ao mesmo tempo, o cenário não é só de retração. O estudo do IDIS identifica um movimento de aproximação: no Brasil, a proporção de pessoas que doam para fortalecer sua comunidade local passou de 25% para 32%, e quem entende a doação como um dever coletivo saltou de 39% para 48% — os dois índices acima das médias global e sul-americana. Ou seja, entre quem ainda doa, o vínculo com a causa parece mais forte do que antes. O desafio das ONGs deixou de ser apenas convencer alguém a doar uma vez, e passou a ser sustentar essa relação ao longo do tempo, em um cenário de menos doadores, porém mais exigentes.
Resiliência em seis frentes
O Panorama das ONGs também mapeia seis fatores que hoje determinam a resiliência das organizações brasileiras: propósito, saúde financeira e operacional, evidências de impacto, pessoas e cultura, parcerias e contexto externo. Entre eles, pessoas e cultura aparecem como um dos pontos mais sensíveis – lideranças relatam dificuldade para recrutar e reter profissionais qualificados, além de desafios ligados ao bem-estar das equipes, mesmo com um discurso predominante de otimismo e confiança na capacidade de resposta das instituições.
O retrato que emerge da combinação dos dois estudos é o de um setor que aprendeu a diversificar receitas e a se profissionalizar, mas que agora enfrenta uma equação mais difícil: convencer um número cada vez menor de doadores a confiar e continuar confiando em organizações que, para sobreviver, precisam justamente dessa confiança para se sustentar.
(Redação ONG News)