O capacitismo nem sempre se manifesta por meio de uma ofensa direta. Ele também está presente em calçadas obstruídas, ambientes sem acessibilidade, decisões tomadas sem consultar a pessoa com deficiência e atitudes de proteção excessiva que limitam sua autonomia.
O alerta é do médico fisiatra Marcelo Ares, coordenador médico das unidades ambulatoriais da AACD. Com quase 30 anos de atuação na área e trabalhando na instituição desde 1997, o especialista defende que o combate ao capacitismo depende da identificação dessas barreiras, inclusive daquelas naturalizadas pela sociedade.
A reflexão ganha destaque neste 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população.
Para Ares, a data continua necessária porque, embora as pessoas com deficiência apresentem necessidades específicas, elas devem ter os mesmos direitos e ser reconhecidas plenamente como cidadãs.
“Essa população necessita de algumas adequações no dia a dia para que tenha seus direitos exercidos e a possibilidade de inclusão na sociedade de uma forma mais integrada. Precisamos estar atentos a essas necessidades, mas também à constatação de que são cidadãos e devem ser tratados como temos que tratar a todos”, afirma.
Capacitismo explícito e estrutural

Marcelo Ares, fisiatra e coordenador médico da AACD – Imagem: AACD
Levantamento da Talento Incluir em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil aponta que 86% das pessoas com deficiência ou neurodivergentes já vivenciaram capacitismo. Além disso, 74% afirmam ter ouvido comentários capacitistas diretamente.
Segundo Marcelo Ares, a discriminação pode aparecer de maneira explícita, em falas, posturas e comportamentos, mas também estar incorporada à estrutura dos espaços e serviços. Um ambiente público construído sem considerar que será frequentado por pessoas com deficiência e sem uma arquitetura apropriada, por exemplo, também representa uma forma de capacitismo.
O médico cita como exemplo as calçadas ocupadas integralmente por mesas e cadeiras. Embora a situação possa parecer comum, ela impede a passagem de pessoas com deficiência, idosos e indivíduos com mobilidade reduzida, inclusive temporária.
“Está todo mundo se divertindo, mas, se alguém tiver que passar pela calçada, como fica? Isso também é uma forma de discriminação, de capacitismo e de falta de respeito com a pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida”, observa.
Os impactos dessas barreiras chegam ao mercado de trabalho. Segundo o Radar da Inclusão 2025, 78% das pessoas com deficiência ou neurodivergentes já enfrentaram dificuldades em processos seletivos por causa de sua condição. A falta de acessibilidade também prejudicou o desempenho ou o bem-estar profissional de 56% das pessoas consultadas.
Para o especialista, quem vivencia o capacitismo deve encontrar espaço para falar, expor e educar sobre a situação. Em alguns casos, também pode ser necessário denunciar. Paralelamente, Ares considera a educação um instrumento importante para transformar comportamentos.
Proteção excessiva também limita
Atitudes aparentemente cuidadosas podem reforçar o capacitismo quando retiram da pessoa com deficiência o direito de tomar decisões. Isso ocorre, por exemplo, quando familiares, cuidadores ou profissionais falam somente com o acompanhante, mesmo quando o indivíduo tem condições de participar da conversa.
Para Ares, o primeiro passo é dirigir-se à própria pessoa e compreender se ela deseja ou necessita de auxílio.
“Se a pessoa com deficiência tem condições de assimilar o que está sendo proposto e de interagir em uma conversa, temos que falar com ela. Se pedir que as informações sejam passadas a outra pessoa, essa é uma determinação dela”, explica.
O médico também recomenda que a ajuda não seja imposta. Quando alguém identifica que a pessoa pode precisar de apoio, deve perguntar se ela deseja recebê-lo. Segundo Ares, a consulta, a conversa ou qualquer outra forma de interação deve partir do reconhecimento da pessoa com deficiência como cidadã.
Reabilitação deve considerar a vida fora do consultório
Na medicina física e de reabilitação, ampliar a funcionalidade não deve significar impor um padrão ou reduzir o indivíduo ao diagnóstico. Segundo o médico, metas e objetivos precisam ser definidos com o paciente e considerar sua rotina, seus interesses e suas condições sociais.
“É o cuidado centrado na pessoa. Para atingir um objetivo de independência ou de inclusão, é preciso conhecer o indivíduo e ir um pouco além do que aparece no consultório. Precisamos conhecer o ambiente em que ele está e a função que queremos trabalhar”, afirma.
No atendimento infantil, por exemplo, o processo deve levar em conta que brincar, conviver e participar da escola fazem parte da vida da criança. Na adolescência e na fase adulta, outras demandas sociais, educacionais e profissionais passam a orientar o acompanhamento.
O especialista reconhece que sua própria forma de exercer a medicina mudou ao longo da carreira. Um dos momentos que contribuíram para essa transformação ocorreu durante uma atividade educativa com pessoas com lesão medular. Após receber orientações técnicas relacionadas aos cuidados de saúde, um dos participantes explicou que não tinha condições financeiras de seguir integralmente as recomendações. Ele afirmou que, para cumprir a orientação, precisaria receber o material pelo posto de saúde ou ter dinheiro para comprá-lo.
A resposta fez com que o médico percebesse a necessidade de compreender as condições concretas enfrentadas pelo paciente fora da instituição.
“Eu pensei: ‘Alguma coisa está errada comigo, porque a informação não está chegando’. A partir daí, passei a entender que também precisava conhecer o paciente fora do consultório, fora do que o livro me fala”, relata.
Para Ares, considerar a realidade do paciente não significa abandonar as boas práticas clínicas. O profissional deve apresentar as orientações, os benefícios esperados e os riscos envolvidos, mas a tomada de decisão precisa respeitar a autonomia de cada pessoa.
“A gente tem que ouvir mais. Vamos oferecer oportunidades e caminhos, mas a escolha deve ser cocriada, compartilhada. Essa é uma forma de respeito”, afirma.
Educação para romper barreiras
Para Marcelo Ares, pessoas com deficiência que ocupam espaços de visibilidade podem contribuir para ampliar as referências existentes na sociedade. No entanto, o enfrentamento ao capacitismo também depende de mudanças nas relações cotidianas.
O especialista avalia que qualquer pessoa pode ter adotado alguma atitude capacitista sem perceber. Para ele, o acesso à informação ajuda a reconhecer esses comportamentos, aprender com os erros e mudar a forma de tratar as pessoas com deficiência.
Ares também defende atenção tanto às manifestações evidentes de preconceito quanto às barreiras estruturais que impedem o exercício pleno da cidadania. Em sua avaliação, falar sobre o tema contribui para desmistificar a deficiência, enquanto a educação é a base para transmitir às próximas gerações, aos amigos e à sociedade a importância de tratar todas as pessoas com respeito.

Atuação da AACD
Segundo Marcelo Ares, a promoção da autonomia também exige equipes especializadas nas diferentes questões relacionadas à deficiência, incluindo os aspectos motores, emocionais e cognitivos.
Fundada em 1950, a AACD é uma organização sem fins lucrativos dedicada à ortopedia, à neuro-ortopedia e à reabilitação de pessoas com mobilidade reduzida permanente ou temporária. A instituição atende pessoas de todas as idades pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por planos de saúde e de forma particular. Após a consulta médica, os pacientes são avaliados por uma equipe multidisciplinar, responsável por definir um plano de tratamento individualizado, com foco em autonomia, inclusão social e qualidade de vida.
A estrutura da organização reúne sete unidades de reabilitação, localizadas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul, além de um hospital de alta complexidade e cinco oficinas ortopédicas. Em 2024, a AACD realizou 901,7 mil atendimentos e 8 mil cirurgias, atendeu mais de 52 mil pacientes e entregou 61,2 mil produtos ortopédicos. Desde sua fundação, a instituição contabiliza mais de 70 milhões de atendimentos, conforme os dados institucionais da AACD.
“A AACD é um dos centros de reabilitação que têm essa expertise há 76 anos, quase 77. A gente vem sempre se aprimorando e evoluindo, sempre centrado na pessoa com deficiência”, conclui Ares.