ONG aplica lógica do mercado financeiro na gestão de projetos educacionais

Instituto Fefig completa 8 anos com atuação em redes públicas e foco na alfabetização
Imagem: Projeto Visão

Quando deixou a rotina do mercado financeiro, depois de décadas entre bancos, gestão de recursos e cargos de alta responsabilidade, Luiz Fernando Figueiredo não seguiu o caminho mais comum entre executivos. Em vez de aposentadoria, palestras ou consultorias, decidiu criar uma organização voltada à educação pública. Oito anos depois, o Instituto Fefig chega em abril com presença em diferentes estados e um modelo de atuação que tenta aproximar dois mundos que raramente dialogam: finanças e políticas educacionais.

A origem do instituto está ligada a uma decisão pessoal, mas a estrutura que se formou ao longo do tempo se distancia de iniciativas familiares ou pontuais. O Fefig opera com equipe enxuta, atuação concentrada em territórios economicamente vulneráveis e foco em melhorar a qualidade da educação básica na rede pública, especialmente na alfabetização.

“Quando você olha um país como o Brasil, muito desigual, praticamente todo projeto social tem um mérito. Mas acredito que a área de educação tem um peso maior, porque ajuda o presente e, principalmente, o futuro”, afirma Figueiredo.

A transição de carreira não foi imediata nem simples. “Quando resolvi deixar a operação na Mauá (nome da gestora de recursos que Figueiredo fundou em 2008) e ir para organização, veio a pergunta: e agora?”, lembra.

A resposta veio com o tempo — e com uma lógica que ele trouxe da vida anterior, que tanto o ajudou a se destacar no mercado financeiro. No Fefig, tudo precisa ser mensurado. Impacto, escala e eficiência são critérios constantes.

“As pessoas do mercado financeiro pensam sempre com objetividade. Se a criança está aprendendo mais, estamos no caminho certo. Se não está, alguma coisa está errada, e precisamos revisitar nossos processos”, diz.

Essa forma de pensar molda a atuação do instituto. Em vez de criar projetos próprios, a organização funciona como uma espécie de curadoria: identifica iniciativas com bons resultados e ajuda a levá-las para redes públicas de ensino. Para Figueiredo, não importa ao Fefig levar autoria de nada. “Queremos que funcione mesmo”, afirma.

A escolha pelos territórios também não é aleatória. O Fefig atua principalmente em estados do Norte e Nordeste, em municípios onde os indicadores educacionais ainda estão longe das metas nacionais. Para o Instituto, são nesses lugares onde a transformação pode ser maior.

O trabalho envolve apoio técnico às secretarias de educação, formação de professores, acompanhamento de indicadores e implementação de metodologias voltadas à alfabetização e à primeira infância. Os projetos têm duração média de três a quatro anos — tempo considerado suficiente para que as práticas sejam incorporadas pelas redes. O processo inclui apoio para identificar e estruturar as mudanças necessárias. Depois sai e vai monitorando os resultados e o impacto à distância, avaliando a necessidade de novas intervenções.

ESCALÁVEL

Uma das primeiras lições da Fefig veio ainda no início do instituto, em conversas com especialistas em educação. A ideia de atuar diretamente com alunos, por mais bem-intencionada, mostrava limites. “Eu aprendi que o melhor investimento é o setor público, pois é uma área que recebe bilhões com educação. No entanto, ele pode funcionar melhor, e é essa nossa missão”, lembra Figueiredo. A partir daí, a estratégia passou a ser atuar dentro das redes públicas, onde está cerca de 85% — percentual que orienta todas as decisões do instituto.

O acompanhamento de resultados é feito de forma sistemática, com monitoramento constante do desempenho dos alunos. Mas os números, sozinhos, não contam toda a história. Há situações em que os indicadores apontam melhoria, mas a realidade local revela desafios mais complexos — ausência de alunos, falta de estrutura familiar, dificuldades sociais que vão além da sala de aula.

“A gente mede tudo, mas também precisa estar no território, falar com as pessoas e saber se o impacto é real mesmo”, diz. Luis Fernando também fazia isso na época da gestora de recursos. Afinal, não bastava ver o balanço da empresa na planilha de Excel, pois o bom investidor é aquele que gasta a sola do sapato para checar se o negócio vai bem ou não. Hoje, o ex-dono da Mauá repete a fórmula de sucesso em sua ONG.

Ao longo da trajetória de quase uma década, ele celebra a crescente atuação do Fefig que hoje já alcança mais de 100 mil estudantes em diferentes regiões do país. Mais do que os números, o que mais impressionou o fundador nesse período foi a fala de uma criança. “Ela nos disse que, certa vez, ouviu dizer que tentar resolver o problema da sua escola era o mesmo que enxugar gelo. Intrigada com a metáfora, respondeu: “Tia, mas eu não sou um gelo!” Para Figueiredo, ver uma criança qu estava prestes a abandonar a escola recuperando o gosto pelo estudo e – o melhor – aprendendo, é o que faz sentir a missão cumprida. O Fefig foi em homenagem ao seu filho, Luiz Felipe Figueiredo, que faleceu aos 23 anos vítima de câncer, em 2017. No dia 13 de abril de 2018, o jovem completaria 24 anos, e foi essa data a escolhida para a inauguração do Instituto.

Oito anos depois, o projeto que começou como uma iniciativa pessoal ganhou escala e passou a operar como uma estrutura voltada à educação pública. E, para Figueiredo, o objetivo segue o mesmo desde o início: “A gente quer ser uma semente. Que isso cresça e vá muito além da gente.”

(Por Adriana Silva, para o ONG News)

Compartilhe esta postagem

WhatsApp
Facebook
LinkedIn

acompanhe nossas

outras notícias