Legado solidário: o que queremos deixar para as próximas gerações?

Com a reforma tributária impulsionando a antecipação de heranças, gerente de filantropia da Aldeias Infantis SOS defende que famílias também repensem o momento de destinar parte do patrimônio a causas sociais, e não apenas via testamento
Pexels

*Por Joanna Calazans

No próximo dia 13, o mundo celebra o Dia Internacional do Legado Solidário, data que reforça o valor humano por trás do ato de destinar parte do patrimônio a causas que beneficiam as futuras gerações. O tema ganha ainda mais relevância em um momento em que muitas famílias brasileiras revisitam seu planejamento patrimonial e sucessório diante das mudanças introduzidas pela reforma tributária.

Nesse contexto, uma notícia publicada na imprensa recentemente chamou a minha atenção. Ela informava que um número crescente de famílias tem antecipado a transmissão de imóveis aos seus herdeiros, motivadas pelas novas regras e pela necessidade de reorganizar o patrimônio.

E, sempre que uma família se reúne para discutir o destino de seu patrimônio, ela acaba discutindo muito mais do que bens. A conversa passa por temas como cuidado, responsabilidade, continuidade e valores. Afinal, quando decidimos o que fazer com aquilo que construímos ao longo da vida, estamos também refletindo sobre o que desejamos deixar para as próximas gerações.

Aqui cabe uma pergunta: se faz sentido antecipar a transmissão de parte do patrimônio para os herdeiros, será que também faz sentido antecipar as doações que muitas pessoas pretendem destinar a organizações sociais em seus testamentos?

A doação via testamento é uma importante ferramenta de transformação social. Ela permite que parte do patrimônio continue gerando impacto positivo mesmo após a morte, transformando um legado familiar em um legado para a sociedade.

No último ano, vivi experiências que reforçaram essa percepção. Na Aldeias Infantis SOS, tive a alegria de saber que dois apoiadores decidiram elaborar seus testamentos e incluir a Organização entre os beneficiários de seu patrimônio. Em ambos os casos, a decisão não surgiu de um pedido específico, mas de uma reflexão pessoal sobre os valores que desejavam perpetuar.

Nesse sentido, o movimento de antecipação das decisões patrimoniais permite ampliar a reflexão: por que não pensar sobre o momento em que queremos que nossa contribuição para uma causa comece a produzir impacto?

Naturalmente, essa não é uma decisão que serve para todos. Cada família tem sua realidade, seus projetos e suas prioridades. Mas, para algumas pessoas, antecipar uma doação pode significar algo que nenhuma doação futura é capaz de oferecer: a oportunidade de acompanhar a transformação acontecendo.

Quem doa em vida pode conhecer de perto o trabalho realizado pela Organização e perceber, concretamente, os resultados de sua contribuição. Mais do que fazer uma doação, é construir uma relação com a causa.

Quando essa doação ocorre em vida, ela também pode se transformar em uma experiência compartilhada. Filhos, netos e outros familiares podem participar das conversas, conhecer organizações e refletir juntos sobre o papel que desejam desempenhar na sociedade. Em vez de transmitir apenas patrimônio, transmitimos também valores onde solidariedade, responsabilidade social e compromisso com o bem comum deixam de ser ideias abstratas e passam a fazer parte da história da própria família.

Todos nós deixaremos um legado de vida. A questão é pensar nesse legado não somente pelos bens que vamos transmitir, mas também pelas escolhas que fazemos sobre o futuro que desejamos ajudar a construir. Talvez seja hora de aproveitar essa oportunidade para adiantar ações que impactam vidas que não podem ser deixadas para depois.

*Joanna Calazans é Gerente de Filantropia da Aldeias Infantis SOS.

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