O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançou nesta semana o Painel Crianças e Meio Ambiente, ferramenta que mapeia a exposição de crianças e adolescentes a riscos climáticos e ambientais em todo o país. O estudo foi feito em parceria com a organização de saúde global Vital Strategies e aponta desigualdades relevantes na distribuição desses riscos entre os municípios brasileiros.
Do total de 5.571 cidades avaliadas, 333 (6%) foram classificadas em situação de maior vulnerabilidade para a infância. A plataforma considera 14 indicadores de exposição ambiental, organizados em quatro eixos: qualidade do ar, infraestrutura ambiental e urbana, eventos climáticos extremos e ambiente escolar. Cada indicador recebe um nível de prioridade — do 3, que exige atenção imediata, ao 1, que demanda apenas monitoramento.
O novo painel se soma a outros levantamentos recentes do Unicef sobre o tema. Um relatório global divulgado pela organização em junho já apontava que 16 milhões de crianças brasileiras — cerca de 3 em cada 10 — estão expostas a três ou mais riscos climáticos simultâneos, como ondas de calor ou secas, e que mais de 30 milhões enfrentam ao menos dois desses riscos no dia a dia. O mesmo estudo mostrou ainda que 95% das crianças e adolescentes do país, o equivalente a 47 milhões, vivem expostos à poluição do ar.
Segundo o levantamento atual, que usa dados de 2021 a 2025, os municípios com pior desempenho concentram-se principalmente no Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Entre as 30 cidades com os piores resultados agregados, 24 estão na região Norte e quatro no Maranhão. Já 108 municípios (1,9%) não apresentaram alta prioridade em nenhum dos indicadores.
O especialista em Mudanças Climáticas do Unicef, Danilo Moura, destacou que crianças dependem de adultos para reconhecer situações de perigo e tomar decisões durante eventos extremos, já que muitas vezes não têm autonomia para isso.
A análise por eixo temático mostra padrões distintos entre as regiões. Na qualidade do ar, a região Norte lidera a prioridade, com 94% dos municípios afetados — resultado atribuído às queimadas. O Sudeste, embora tenha apenas 39% das cidades no grupo de maior risco, concentra 72% da população infantil da região, com problemas ligados ao transporte e à indústria. Em eventos climáticos extremos, Norte e Sul somam 91% e 68% dos municípios em alerta, sobretudo por chuvas intensas. Já na infraestrutura ambiental e urbana, Norte (78%) e Nordeste (46%) têm as maiores proporções de cidades prioritárias, por razões que vão da dispersão geográfica à escassez hídrica. No ambiente escolar, Nordeste (52%) e Sudeste (39%) lideram os índices de escolas sem áreas verdes.
A representante adjunta do Unicef no Brasil, Layla Saad, afirmou que transformar os dados em prioridades ajuda a direcionar políticas públicas, programas e orçamentos para os municípios mais afetados. O vice-presidente de Inovação da Vital Strategies, Pedro de Paula, avalia que a ferramenta permite um olhar individualizado sobre o território, com foco em ações preventivas.
Além dos diagnósticos por município, o Painel reúne 50 recomendações de enfrentamento para os casos de maior prioridade, que vão de intervenções físicas a medidas institucionais.
(Redação ONG News com informações da Agência Brasil)