Os desafios do terceiro setor

Análise discute como a instabilidade no financiamento limita a capacidade do terceiro setor de atuar de forma contínua, coordenada e estratégica frente a problemas estruturais
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*Por Rodolfo Moreira Hojda dos Santos

O terceiro setor, em regra, tende a ser reconhecido por entregas associadas a demandas emergenciais e à resposta imediata a situações de vulnerabilidade. Entretanto, em regimes democráticos mais estáveis, organizações da sociedade civil desempenham funções que ultrapassam o atendimento de contingência. Essas organizações contribuem para a tradução de necessidades difusas em linguagem pública, para a qualificação de diagnósticos territoriais e para o tensionamento de prioridades na esfera pública, influenciando, em alguma medida, o debate político para além das urgências conjunturais. Há indícios de que o modo como uma entidade estrutura sua atuação, seus registros e suas articulações com a rede de serviços afeta a forma como determinados problemas passam a ser percebidos, delimitados e tratados.

Essa dimensão democrática convive com uma contradição recorrente entre o horizonte temporal dos problemas públicos e o horizonte temporal dos mecanismos que sustentam a ação organizacional. Em geral, as causas enfrentadas por organizações da sociedade civil não se resolvem por intervenções breves e isoladas, mas demandam continuidade, coordenação intersetorial e processos cumulativos de aprendizagem. Não obstante, o ambiente de financiamento e de visibilidade tende a operar em ciclos curtos, privilegiando iniciativas cuja comunicação e comprovação sejam mais imediatas. Esse descompasso, ao introduzir instabilidade, tende a restringir o alcance de ações orientadas a resultados de médio e longo prazo, justamente aquelas mais aderentes à natureza estrutural dos problemas.

Nesse sentido, a viabilidade financeira tende a depender menos do volume absoluto de capital e mais da previsibilidade e regularidade dos aportes. A distinção relevante, aqui, é entre financiar atividades isoladas e sustentar capacidade organizacional. Em contextos de alta complexidade, nos quais a intervenção exige continuidade, coordenação e qualificação técnica, a predominância de recursos fragmentados, intermitentes ou vinculados a projetos de curta duração compromete a manutenção de equipes, rotinas, infraestrutura e governança. O efeito é que elementos que deveriam constituir a base operacional passam a competir com a urgência de manter a execução em funcionamento, restringindo a possibilidade de acumular consistência e produzir efeitos de médio e longo prazo.

A consequência mais imediata desse arranjo se manifesta no modo como as organizações planejam e tomam decisões ao longo do tempo. Quando os aportes se dão de forma intermitente, o planejamento tende a assumir um caráter defensivo. Em vez de consolidar padrões e acumular aprendizagem, a organização se orienta por decisões de mitigação do risco de descontinuidade. Esse deslocamento afeta a capacidade de sustentar pactos de longo prazo, de produzir coordenação mais fina e de gerar efeitos cumulativos. Em termos práticos, a organização torna-se mais vulnerável à variação de contexto e, com isso, perde densidade como resposta resolutiva ao problema que pretende enfrentar.

Essa fragilidade repercute também na relação com o Estado. A premissa de que o terceiro setor atua apenas nos vazios deixados pelo poder público tende a simplificar um arranjo que, em termos operacionais, se configura como interdependência. Organizações dependem de serviços públicos para encaminhamentos, fluxos intersetoriais, articulações territoriais e, em muitos casos, para que a intervenção alcance escala e continuidade. O Estado, por sua vez, depende da capilaridade territorial e da capacidade de execução especializada de determinadas organizações para alcançar públicos e contextos específicos. Na ausência de coordenação, emergem sobreposições, retrabalho e, frequentemente, um uso menos eficiente de recursos disponíveis, que comumente são escassos.

Nesse contexto, a gestão deixa de ser dimensão acessória e passa a ser condição inerente ao impacto que se deseja gerar. A entrega tende a se consolidar apenas quando amparada por uma arquitetura decisória capaz de estabilizar rotinas, reduzir perdas e manter critérios legíveis para quem executa e para quem apoia. A profissionalização, aqui, deve ser compreendida menos como estética organizacional e mais como conversão prática de capacidade de mobilização, parcerias e trabalho voluntário. Sem esse acúmulo, parte do esforço retorna ao ponto de partida com frequência superior àquela que problemas estruturais permitem.

Há, por fim, um desafio relacionado à forma de aferição de resultados. Transparência é indispensável, mas nem todo dado quantitativo reflete a substância da intervenção. Resultados, como a estabilização de vínculos, a redução de riscos e a melhoria na coordenação entre serviços, tendem a ser processuais, cumulativos e pouco compatíveis com indicadores de curto prazo. Quando o ambiente de fomento privilegia métricas de visibilidade imediata, cresce o risco de valorização de atividades de baixa relevância em detrimento de transformações cuja manutenção exige tempo, coordenação e resiliência.

A vitalidade da sociedade civil organizada depende, portanto, de condições materiais e marcos de cooperação que não penalizem a continuidade. Em termos analíticos, o fortalecimento do setor tende a requerer uma inflexão do foco de parcerias: da resposta isolada para a sustentação de capacidades que permitam continuidade, coordenação e aprendizagem. Em uma leitura de médio prazo, a superação da fragmentação de recursos e da transitoriedade de vínculos aparece como condição para que a atuação das organizações não se restrinja à reação a carências imediatas, mas contribua para uma construção mais perene e coordenada de respostas públicas.

*Rodolfo Moreira Hojda dos Santos é gestor de operações e projetos, formado em Sociologia pela FESP, com pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios, MBA em Gestão de Projetos pela FGV e mestrado profissional em Gestão e Políticas Públicas pela FGV.

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