*Por Rodolfo Moreira Hojda dos Santos
Uma parte relevante da atenção social acontece fora dos ciclos de projeto. É a refeição que sai todos os dias, a visita que se repete, o acolhimento, a escuta que permanece quando o território em transformação. Em muitos lugares, essa continuidade é sustentada por organizações baseadas na fé, as OBFs, que operam com uma combinação de presença comunitária, voluntariado e redes locais.
No Brasil, esse protagonismo aparece também nos números. O Mapa das Organizações da Sociedade Civil registra 897.054 OSCs ativas em 2024 e aponta que aproximadamente 30% delas são organizações religiosas. Em análises do próprio Mapa, a religião também aparece entre as áreas de atuação mais frequentes no retrato do setor. Esses dados ajudam a entender por que, em bairros periféricos e municípios pequenos, é comum que a porta mais próxima de ajuda organizada esteja vinculada a alguma comunidade de fé.
A importância das OBFs, porém, não se explica apenas por volume. Em geral, elas operam com o que pode ser entendido como infraestrutura social de baixa fricção: espaços já existentes, rotinas que se mantêm e uma gramática de pertencimento que facilita mobilização. Isso pode produzir algo que muitas políticas públicas buscam, mas nem sempre conseguem estabilizar: vínculo. Em contextos de alta vulnerabilidade, vínculo tende a funcionar como ativo operacional, porque reduz evasão, aumenta adesão, facilita encaminhamentos e dá previsibilidade mínima para quem depende do serviço.
Há exemplos concretos no próprio país. Um artigo de revisão sobre organizações religiosas na saúde menciona um censo governamental de 2002 que identificou 1.718 “hospitais filantrópicos” no Brasil, em grande parte administrados por organizações religiosas, com 155.503 leitos, cerca de 32% do total de hospitais. O mesmo texto menciona a experiência da Pastoral da Criança, com acompanhamento mensal de mais de 1,5 milhão de crianças em milhares de municípios, apoiada por uma rede extensa de voluntários.
Quando olhamos para fora, a presença das organizações de fé em serviços essenciais também não parece um fenômeno exclusivamente brasileiro. Parte da literatura em saúde pública registra estimativas na faixa de 30% a 70% do atendimento em saúde em países da África Subsaariana associado a estruturas de base religiosa, sobretudo em áreas remotas e rurais. Em outro registro, o tema aparece como legitimidade social: em pesquisa de opinião nos Estados Unidos, 52% disseram que organizações religiosas podem fazer o melhor trabalho em alimentar pessoas em situação de rua.
Isso leva aos dilemas. O primeiro é a fronteira entre ajuda e direito. Parte da ação das OBFs nasce de uma ética comunitária de cuidado, enquanto a política pública opera com parâmetros, responsabilidades e garantia de direitos. O segundo é a linguagem da evidência. Muitas OBFs fazem muito com baixa formalização e, quando entram em parcerias, enfrentam exigências de prestação de contas e indicadores que nem sempre capturam o que elas sustentam no cotidiano.
As OBFs aparecem menos em relatórios, menos em debates públicos e ainda assim, seguem atuando de forma consistente, dia após dia. Talvez valha a pergunta: o que aconteceria em muitos bairros e cidades se essa infraestrutura simplesmente parasse? Essa reflexão, por si, já ajuda a dimensionar por que olhar para as OBFs com mais atenção pode ser também uma forma de pensar políticas públicas mais aderentes.
*Rodolfo Moreira Hojda dos Santos é gestor de operações e projetos, formado em Sociologia pela FESP, com pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios, MBA em Gestão de Projetos pela FGV e mestrado profissional em Gestão e Políticas Públicas pela FGV.
Referências:
https://mapaosc.ipea.gov.br/post/153/analise-infografico-reune-dados-com-o-perfil-das-oscs
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6735024/