Transformar uma realidade não depende apenas de uma boa iniciativa. Para que uma organização consiga manter seu trabalho, ampliar sua atuação e produzir resultados no longo prazo, também precisa olhar para dentro: qualificar equipes, fortalecer a gestão, estruturar a governança e garantir condições para que a causa não dependa apenas de esforços pontuais.
Foi a partir dessa perspectiva que o Encontro do Terceiro Setor FDC 2026 reuniu, nesta quinta-feira (24), no Campus Aloysio Faria, em Nova Lima (MG), lideranças, dirigentes, conselheiros, especialistas e profissionais de Organizações da Sociedade Civil (OSCs).
Com o tema “Fortalecendo Organizações para Transformar Realidades”, o encontro colocou em debate um desafio que acompanha o cotidiano do setor: como fortalecer as organizações para que elas continuem relevantes diante de mudanças sociais, econômicas e institucionais?
Fortalecer as estruturas para sustentar a causa
Entre os desafios discutidos está o desenvolvimento institucional das organizações. Embora a atuação junto às comunidades seja o aspecto mais visível do trabalho das OSCs, existe uma estrutura por trás dela que também precisa de investimento.
Para Solange Bottaro, vice-presidente do Instituto Ramacrisna e presidente da Fundamig – Federação Mineira de Associações e Fundações de Direito Privado, a qualificação das equipes é um dos pontos que ainda recebem menos atenção.
“A falta de investimento na qualificação da equipe e, consequentemente, dos aportes financeiros abaixo das necessidades da organização, em razão da pouca qualificação da equipe.”
Ela destaca que esse processo precisa caminhar junto com a credibilidade e a eficiência da organização.
“Ao mesmo tempo, temos que manter credibilidade frente aos parceiros e eficiência na gestão para conquistar resultados de médio e longo prazos.”
Nesse cenário, a governança ganha espaço como uma ferramenta para dar mais consistência às decisões e à própria atuação das organizações.
“É preciso um olhar atento para sua governança. Uma governança sólida atrai grandes doadores. Da mesma forma, o fortalecimento da direção e da equipe da organização refletem os princípios éticos e a excelência dos processos, que fortalecem sua presença na sociedade”, afirma Solange.
Impacto também depende de articulação
Outro desafio está na própria compreensão sobre o que significa gerar impacto social. Para Domingos Armani, sociólogo e consultor em Desenvolvimento Institucional de OSCs e diretor da Armani Consultoria, mudanças estruturais não são resultado da atuação isolada de uma organização.
“Se entendemos impacto social como as mudanças estruturais e duradouras no longo prazo nas condições de vida das pessoas foco do trabalho da organização, então teremos de concluir que nenhuma organização sozinha é capaz de produzir impacto social.”
Segundo ele, esse processo depende da articulação entre diferentes atores, incluindo poder público, financiadores, doadores e sociedade.
“Para haver impacto, é necessário a articulação e alinhamento de vários atores, como o governo/políticas públicas, financiadores/doadores de todo tipo, opinião pública sensível e favorável e um ótimo trabalho de estímulo, fortalecimento de capacidades e apoio por parte das OSCs.”
Armani também chama atenção para uma dimensão que, segundo ele, ainda aparece pouco no discurso das organizações: a incidência.
“Se ouve muito as organizações falando de seu impacto, mas o que elas pouco falam é sobre a necessidade de exercer incidência (influência) sobre os gestores públicos, privados e a opinião pública, buscando que eles favoreçam as mudanças almejadas no médio e longo prazo.”
A atuação das OSCs, portanto, não se limita à execução de projetos. Também envolve diálogo, articulação e capacidade de influenciar debates e decisões que afetam diretamente as causas defendidas pelo setor.
O que precisa mudar daqui para frente?
Para continuar relevante, uma organização também precisa acompanhar as transformações ao seu redor. Armani destaca a importância de observar as mudanças de contexto, fortalecer articulações e construir posicionamentos institucionais coerentes com os desafios de cada momento.
“Ela precisa estar atenta (ler, estudar, se informar, discutir…) às mudanças de contexto local, nacional e internacional; estar bem articulada com suas congêneres do campo social; formular um posicionamento institucional adequado aos desafios do contexto à luz da missão, e ser capaz de demonstrar que sua atuação faz diferença substancial na vida das pessoas com as quais atua”, afirma.
Na avaliação de Solange, esse fortalecimento passa também pela profissionalização da gestão. Ela cita a parceria do Instituto Ramacrisna com a Fundação Dom Cabral, iniciada em 2008, como parte desse processo.
“A certeza de que, a partir de uma parceria com a Fundação Dom Cabral desde 2008, conseguimos estabelecer uma governança sólida e profissionalizar uma estrutura de gestão para que a causa seja sustentável e escalável.”
Para ela, encontros como o realizado pela FDC também ajudam as organizações a ampliar seu repertório.
“O encontro possibilita uma série de apresentações que possibilitam ampliar nossa área de ação, buscar ações inovadoras e principalmente confiabilidade e relevância para os parceiros.”
Aprender sem perder o propósito
As experiências compartilhadas durante o encontro também deixam reflexões para além da programação. Para Armani, um dos principais aprendizados foi a necessidade de incorporar a incidência à estratégia das organizações.
“O desafio de se qualificar e se organizar para fazer incidência como parte da estratégia de atuação.”
Solange, por sua vez, reforça que o fortalecimento institucional é um processo contínuo e que precisa estar conectado à sustentabilidade da causa.
Quando pensa em uma organização social forte, ela aponta quatro elementos: propósito, gestão, capacidade de inovação e, no médio prazo, autossustentabilidade.
Armani acrescenta outro aspecto: a capacidade de aprender e mudar diante de novos cenários, sem abandonar aquilo que orienta a organização.
“Capacidade de aprender e de se adaptar a novos contextos sem perder o essencial de sua identidade e propósito.”
As diferentes perspectivas apresentadas no encontro mostram que fortalecer o Terceiro Setor envolve muito mais do que ampliar projetos ou captar novos recursos. Passa por construir organizações capazes de se manter de pé, tomar decisões com responsabilidade, desenvolver pessoas, dialogar com diferentes atores e se adaptar às mudanças sem perder de vista a razão pela qual existem.
É nesse equilíbrio entre propósito e estrutura, impacto e sustentabilidade, identidade e capacidade de adaptação que se coloca um dos principais desafios para as organizações sociais nos próximos anos.
(Redação ONG News)