O poder das pontes: porque conectar empresas, ONGs e investidores

Construir pontes entre setores será a liderança estratégica da próxima década

*Por Daniela Kallas

Por muito tempo, o mundo dos negócios, das causas sociais e das políticas públicas operou em universos paralelos. Hoje, isso não é apenas disfuncional, é inviável. As crises que enfrentamos são sistêmicas: mudanças climáticas, desigualdade extrema, colapsos sanitários, disrupção tecnológica. Nenhum setor consegue enfrentá-las sozinho. A competência mais estratégica da próxima década será, portanto, saber construir pontes. Não metafóricas, mas operacionais: entre empresas, governos, comunidades, investidores e tecnologias.

Os grandes estruturadores de impacto da atualidade, como Darren Walker (Ford Foundation), Mariana Mazzucato (IIPP), Clara Miller (Heresies), ou lideranças locais na Índia, no Quênia e no Brasil, têm algo em comum: eles transitam entre mundos com fluência. Compreendem a lógica do mercado, mas também sabem operar com escassez. Dialogam com governos e também com movimentos populares. Traduzem interesses e criam convergências improváveis. Não se trata de carisma. Trata-se de inteligência sistêmica, de capacidade de navegar em contextos diversos e encontrar pontos de contato entre agendas aparentemente opostas.

Na Índia, o programa Mission Shakti, liderado pelo governo de Odisha, articulou bancos, ONGs e grupos comunitários para empoderar mais de 7 milhões de mulheres através de formação, microcrédito e inserção produtiva. No Brasil, redes como a Gerando Falcões mostram como é possível, a partir da periferia, conectar empresas, institutos privados e comunidades para romper ciclos de pobreza estrutural. Em Houston, uma coalizão entre setor público, fundações e iniciativas comunitárias reduziu em 64% a população em situação de rua, usando uma governança compartilhada baseada em dados e metas comuns.

Essas iniciativas não nascem da cabeça de um gênio solitário, mas da costura entre saberes, setores e propósitos. Trata-se de ecossistemas de colaboração entre agentes com visões e lógicas distintas, mas dispostos a se engajar em um projeto comum. A ciência política chama isso de “governança colaborativa”. Na prática, é a arte de fazer com que um banco, uma ONG de base comunitária e um órgão público trabalhem juntos por um objetivo compartilhado.

Investidores atentos começam a perceber: propósito e lucro não são opostos. O mercado global de investimento de impacto ultrapassou US$ 1 trilhão em 2023, segundo o GIIN. Alianças ESG, regulações inteligentes e tecnologias como IA exigem um novo perfil de liderança: o profissional que circula entre a planilha financeira e a escuta comunitária. Que entende que ser pobre pode ser uma fortaleza, não por romantismo, mas por perspectiva, empatia e capacidade de navegar com escassez.

Pesquisas mostram que a adversidade, longe de ser um impeditivo, pode ser um acelerador de liderança. Pessoas que cresceram em contextos de vulnerabilidade têm maior resiliência, criatividade e empatia; três qualidades críticas para liderar em ambientes complexos. São profissionais que sabem fazer muito com pouco, que se adaptam rápido, que entendem a urgência dos problemas sociais não como abstração, mas como realidade cotidiana.

A inovação também caminha nessa direção. A emergente “governança da inteligência artificial” é, por definição, uma empreitada multissetorial. Ninguém quer um futuro de algoritmos que reproduzem desigualdades, mas a solução não está em comitês técnicos isolados. Está no diálogo entre engenheiros, reguladores, ativistas e usuários. Iniciativas como a AI Governance Alliance, criada pelo Fórum Econômico Mundial, apontam para esse novo paradigma colaborativo.

Gente com essa capacidade de “transitar entre mundos” será cada vez mais valorizada. Os profissionais do futuro são tradutores culturais, arquitetos de pontes, construtores de alianças. Pessoas que convertem conflitos em colaboração, que costuram redes entre quem tem recursos e quem tem soluções, entre quem tem dados e quem tem vivência.

O Brasil tem um papel singular nesse cenário. Com uma das sociedades mais desiguais do mundo e um setor social historicamente ativo, o país pode ser um laboratório global de inovação social colaborativa. Já vemos isso em ações como o Pacto das Favelas, que une empresários, lideranças comunitárias e institutos de pesquisa para construir soluções sistêmicas nas periferias. Ou no Marco Legal das Startups, que abriu caminho para parcerias mais ágeis entre governo e negócios inovadores.

É hora de ampliar esse movimento. De formar uma nova geração de profissionais que não apenas entendem os problemas, mas sabem orquestrar soluções junto com outros. Que constroem com, não para. Que reconhecem que nenhum setor é suficiente sozinho – mas juntos, podem ser transformadores.

O futuro não será dos especialistas em algoritmos nem dos CEOs visionários. Será dos arquitetos de pontes. E o tempo para começar é agora.

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Daniela Kallas é advogada humanitária e empreendedora social, com mais de 20 anos de experiência em missões humanitárias e projetos de impacto social na Ásia, Oriente Médio, Europa, África e América Latina. É sócia da Avencis Capital e investidora em negócios de impacto como a Nexiqon (ambiental), a VV Inteligência Humanitária e a Polvo Lab, onde impulsiona soluções inovadoras para a transformação ambiental e social. Especialista em Direito Internacional Humanitário pela Université Paris I – Panthéon-Sorbonne (2002), é mestre em Direito Europeu e Internacional pelo Instituto de Direito Comparado da Université Paris II – Panthéon-Assas (2004). Ampliou sua formação em Ciências Humanas — Sociologia, História e Filosofia — pela PUC-RS (2023).

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