As mulheres já são maioria entre os palestrantes confirmados do FIFE 2026, principal evento de gestão do terceiro setor no Brasil, que será realizado entre os dias 14 e 17 de abril, no Recife. Levantamento a partir da programação oficial indica que cerca de 49% dos nomes anunciados são mulheres, sinalizando uma presença relevante também nos espaços de debate público do setor.
A proporção acompanha o perfil das organizações da sociedade civil no país. Dados do IBGE mostram que aproximadamente 68,9% das pessoas empregadas em OSCs são mulheres, consolidando uma predominância feminina que atravessa diferentes áreas de atuação, especialmente aquelas ligadas ao cuidado, à educação e à assistência social.
A concentração é ainda mais evidente em segmentos específicos. Na educação infantil, por exemplo, as mulheres representam mais de 90% da força de trabalho. Já nas áreas de assistência social e saúde, elas também são maioria, ainda que em proporções menos extremas. O padrão reflete uma divisão histórica do trabalho, que associa mulheres a funções de cuidado e suporte social.
Essa presença, no entanto, não se traduz automaticamente em equilíbrio de poder. Especialistas apontam que, apesar de maioria na base operacional, as mulheres ainda enfrentam barreiras para ocupar cargos de liderança e decisão dentro das organizações, além de diferenças salariais persistentes.
No FIFE, a presença de 66 palestrantes mulheres evidencia avanços na ocupação desses espaços. A programação reúne lideranças com trajetórias consolidadas em diferentes áreas do setor, como empreendedorismo social, comunicação, captação de recursos e desenvolvimento institucional.
Entre os nomes confirmados estão Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora; Maria Paula, vice-presidente do Instituto Gabriel Gastal; Adriana Souza Silva, especialista em comunicação para organizações sociais; e Flávia Lang, referência em mobilização de recursos no país.
Também participam Amanda Riesemberg, diretora da BC Marketing; Ana Carrenho, com atuação em direito das OSCs; Carol Zanoti, especialista em políticas públicas; Leticia Silveira Santana, focada em cultura organizacional; e Patricia Marafigo, com atuação em estratégias de captação.
A atuação dessas lideranças dialoga com um fenômeno mais amplo: o crescimento de organizações lideradas por mulheres e seu impacto em agendas sociais. Iniciativas com liderança feminina têm se destacado em áreas como educação, saúde, igualdade de gênero e desenvolvimento comunitário, além de programas voltados à geração de renda e autonomia econômica.
Estudos apontam que organizações com maior participação feminina tendem a priorizar ações voltadas à redução de desigualdades e ao fortalecimento de redes comunitárias. Ao mesmo tempo, enfrentam desafios estruturais semelhantes aos do restante do setor, como acesso a financiamento, sustentabilidade de longo prazo e reconhecimento institucional.
Outro ponto recorrente é a dificuldade de retenção de profissionais e lideranças, em um contexto marcado por alta demanda, recursos limitados e sobrecarga de trabalho — fatores que afetam especialmente mulheres, que ainda acumulam responsabilidades domésticas e de cuidado fora do ambiente profissional.
No caso do terceiro setor, essa dinâmica ajuda a explicar por que as mulheres são maioria na execução, mas nem sempre nos espaços de maior visibilidade e decisão. A ampliação da presença feminina em eventos como o FIFE aponta para uma mudança gradual nesse cenário, ainda que as desigualdades persistam.
O FIFE 2026 deve reunir cerca de 2 mil participantes e mais de 100 palestrantes, consolidando-se como um dos principais espaços de articulação, formação e debate sobre gestão, financiamento e impacto social no Brasil.
(Redação ONG News)