No Brasil, 62,6% das famílias que vivem em situação de déficit habitacional são chefiadas por mulheres. O dado integra levantamento da Habitat para a Humanidade Brasil, elaborado a partir de informações da Fundação João Pinheiro, e evidencia como as desigualdades de gênero e raça também se refletem no acesso à moradia. Atualmente, o país possui cerca de 5,97 milhões de domicílios em déficit habitacional e outros 27,6 milhões com algum tipo de inadequação, como infraestrutura precária, adensamento excessivo ou insegurança fundiária.
Além de representar um desafio econômico, a moradia adequada é considerada um fator central para a autonomia e a segurança das mulheres. Especialistas apontam que condições habitacionais precárias podem ampliar a vulnerabilidade à violência, restringir oportunidades de mobilidade social e perpetuar ciclos de pobreza, especialmente entre mulheres responsáveis pelo sustento familiar.
Desigualdade racial amplia barreiras ao acesso à moradia
A pesquisa também mostra que o cenário é ainda mais desafiador para mulheres negras. De acordo com o estudo, elas podem levar até sete gerações — cerca de 184 anos — para conseguir comprar uma casa própria. A estimativa considera um cenário extremamente restritivo, no qual a renda familiar cobre apenas despesas essenciais, como alimentação, aluguel, deslocamento para o trabalho e os custos básicos para sustentar um filho.
Mesmo nessas condições hipotéticas, restariam, em média, apenas R$ 31,62 por mês para poupança. Considerando que o valor médio de um imóvel em favelas brasileiras é de aproximadamente R$ 69.828,57, seriam necessários quase dois séculos para acumular o valor necessário para a compra.
Para Raquel Ludermir, gerente de Incidência em Políticas Públicas da Habitat para a Humanidade Brasil, o resultado evidencia um problema estrutural. Segundo ela, quando um levantamento indica que mulheres negras podem levar quase dois séculos para conquistar a casa própria, trata-se de uma desigualdade intergeracional que ultrapassa a dimensão individual.
Além de representar um desafio econômico, a moradia adequada é fator determinante para autonomia e segurança. Especialistas destacam que a precariedade habitacional pode ampliar a vulnerabilidade à violência, limitar oportunidades de mobilidade social e reforçar ciclos de pobreza, especialmente entre mulheres responsáveis pelo sustento familiar. Para a organização, incorporar o recorte de gênero às políticas habitacionais é fundamental para enfrentar a desigualdade estrutural no país. Priorizar mulheres chefes de família em programas de acesso à moradia, ampliar o crédito habitacional e fortalecer iniciativas de regularização fundiária são medidas que podem contribuir para reduzir disparidades e promover maior justiça social.
Para saber mais sobre o estudo, acesse o site da ONG Habitat para a Humanidade Brasil.
(Redação ONG News)