A filantropia brasileira deve enfrentar, em 2026, um cenário de maior complexidade institucional, pressão por resultados e exigência de inovação. É o que aponta o relatório Perspectivas para a Filantropia no Brasil 2026, lançado pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. O estudo indica que o setor vive um ponto de inflexão: ampliar recursos já não basta. Será necessário fortalecer a legitimidade, integrar-se de forma mais estratégica às políticas públicas e incorporar a crise climática como critério transversal nas decisões.
O documento reúne oito perspectivas consideradas centrais para o Investimento Social Privado (ISP) no próximo ano: confiança e legitimidade institucional, financiamento inovador, participação das comunidades, integração com políticas públicas, inteligência artificial, legado, fortalecimento da filantropia familiar e clima como eixo estruturante.
Para Paula Fabiani, CEO do IDIS, a emergência climática deixou de ser tema isolado. “A crise climática é incontornável para a filantropia e precisa estar integrada à atuação em diferentes causas. Isso exige visão de longo prazo, revisão de práticas e capacidade de adaptação”, afirma.
Confiança fragilizada
O relatório chama atenção para o ambiente de desconfiança institucional. Dados do Edelman Trust Barometer 2026 mostram que 7 em cada 10 pessoas hesitam em confiar em quem pensa diferente, reflexo do avanço da chamada “mentalidade insular”. No Brasil, a Pesquisa Doação Brasil 2024 revela que apenas 30% da população considera as ONGs confiáveis.
Diante desse cenário, o estudo sustenta que transparência é condição necessária, mas insuficiente. Reforçar governança, aprimorar a comunicação institucional e ampliar o diálogo com a sociedade são apontados como caminhos para reconstruir legitimidade.
Financiamento e ambiente regulatório
Entre as tendências destacadas está o avanço de mecanismos como blended finance, fundos híbridos e matchfunding, que combinam recursos públicos e privados para ampliar escala e impacto. Apesar do potencial, o relatório ressalta entraves regulatórios e baixa previsibilidade jurídica.
A implementação gradual da reforma tributária a partir de 2026 é vista como oportunidade para alinhar incentivos fiscais ao papel público da filantropia. Um exemplo citado é o programa Juntos pela Saúde, iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), gerida pelo IDIS, que adota modelo de matchfunding para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) nas regiões Norte e Nordeste.
Clima como critério estratégico
Embora a pauta ambiental tenha ganhado centralidade no debate público, o relatório aponta baixa atuação preventiva do Investimento Social Privado frente à crise climática. Para o IDIS, incorporar o clima de forma transversal — em áreas como saúde, educação, desenvolvimento territorial e geração de renda — será determinante para ampliar impacto e efetividade.
Ao analisar tendências globais e nacionais, o estudo conclui que 2026 pode marcar uma redefinição das prioridades do setor. Mais do que ampliar aportes, a filantropia brasileira será desafiada a estruturar estratégias de longo prazo, fortalecer sua legitimidade e assumir papel mais integrado às políticas públicas em um cenário de crescentes demandas sociais e ambientais.
O relatório completo está disponível aqui.
(Redação ONG News)