Sete em cada dez organizações identificam algum tipo de barreira relacionada à idade no ambiente de trabalho, seja para contratação, promoção ou desenvolvimento profissional. É o que aponta uma pesquisa inédita realizada pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) com 110 empresas, que juntas representam aproximadamente 530 mil trabalhadores no Brasil.
O levantamento mostra que, embora a longevidade esteja ganhando espaço nas discussões sobre gestão de pessoas, o tema ainda não está consolidado nas estratégias das organizações. Para metade dos participantes, a idade representa uma barreira em algumas áreas ou situações. Outros 20% afirmam que ela representa algum tipo de obstáculo para a trajetória profissional.
Apenas 13,6% dos entrevistados consideram que a idade não é uma barreira, enquanto outros 13,6% dizem que isso ocorre raramente. Entre os respondentes, 2,8% não souberam avaliar a questão.
Para a psicóloga, especialista em longevidade e diretora da ABQV, Luiza Cruz, os resultados chamam atenção diante do aumento da presença de diferentes gerações no mercado de trabalho.
“A pesquisa mostra, entretanto, que essa realidade ainda não se converteu plenamente em políticas organizacionais estruturadas”, afirma.
Longevidade ainda não é prioridade nas empresas
A pesquisa também revela que a maior parte das empresas ainda trata a longevidade de forma pontual. Entre os participantes, 38,2% afirmam que o tema ainda não foi discutido na organização, enquanto 26,4% relatam a existência de iniciativas pontuais.
Outros 19,1% dizem que a longevidade já começou a ser discutida, mas ainda sem ações concretas. Apenas 7,3% afirmam que o tema está integrado à estratégia da empresa.
As iniciativas existentes estão concentradas principalmente em saúde e prevenção. Programas de prevenção e promoção da saúde são realizados por 40,9% das organizações consultadas, enquanto 28,2% desenvolvem ações de capacitação e desenvolvimento.
Programas de preparação para a aposentadoria e ações de diversidade etária aparecem, cada um, em 20,9% das empresas. Já iniciativas voltadas especificamente à contratação, retenção ou desenvolvimento de profissionais com 60 anos ou mais são citadas por 18,2%.
Mentorias ou ações de transferência de conhecimento entre gerações aparecem em 15,5% das respostas. A adaptação das condições de trabalho é mencionada por 11,8%. Apenas 0,9% das organizações afirmam ter a gestão e todas as atividades integradas à perspectiva da longevidade.
Segundo Luiza Cruz, os dados indicam uma diferença entre ações voltadas à saúde e iniciativas capazes de acompanhar toda a trajetória profissional dos trabalhadores.
“Os resultados apontam, portanto, para uma diferença entre iniciativas voltadas à promoção da saúde e preparação para o envelhecimento e políticas mais amplas de gestão da carreira, permanência, desenvolvimento e valorização dos profissionais maduros”, avalia.
Falta de conhecimento é principal obstáculo
Entre as barreiras para avançar na agenda de longevidade, a falta de conhecimento sobre o tema foi a mais citada, aparecendo em 44,5% das respostas.
Na sequência estão a baixa priorização ou falta de apoio, mencionada por 33,6% dos participantes, e a ausência de dados e indicadores, apontada por 20%.
Preconceitos ou estereótipos relacionados à idade aparecem em 21,8% das respostas, enquanto 18,2% citam a resistência cultural. A falta de uma área responsável pelo tema foi mencionada por 15,5% e a ausência de orçamento ou recursos, por 14,5%.
Para a diretora da ABQV, os resultados mostram que o avanço da pauta depende não apenas de investimentos, mas também de conhecimento e de mecanismos para acompanhar os resultados das iniciativas.
Lideranças ainda não estão preparadas
Outro ponto identificado pela pesquisa é a preparação das lideranças para administrar equipes formadas por diferentes gerações. 34,5% das organizações afirmam não oferecer nenhum tipo de preparação sobre o tema.
Em 21,8% das empresas, o assunto aparece apenas em discussões ou ações informais. Outros 18,2% relatam oferecer ações ou capacitações pontuais.
Os números indicam que a preparação sistemática de gestores para lidar com a diversidade etária ainda é pouco disseminada nas organizações.
Empresas planejam ampliar ações
Apesar das dificuldades, a pesquisa também aponta que as organizações pretendem avançar na agenda de longevidade nos próximos dois anos.
Entre as prioridades estão saúde e capacidade funcional, citada por 41,8% dos participantes; integração entre gerações, com 36,4%; desenvolvimento de lideranças, desenvolvimento e aprendizagem, ambos com 30,9%; além de retenção e valorização de profissionais e diversidade etária e enfrentamento do etarismo, também mencionados por 30,9%.
Para Luiza Cruz, a discussão sobre longevidade precisa ir além da preparação para a aposentadoria e das ações tradicionais de saúde.
“A presença de profissionais de diferentes gerações traz para as organizações questões relacionadas à saúde, aprendizagem, desenvolvimento profissional, liderança, transferência de conhecimento, desenho do trabalho, diversidade e combate a preconceitos relacionados à idade”, afirma.
Os resultados completos da pesquisa foram apresentados durante o 24º Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida, promovido pela ABQV entre 29 de setembro e 1º de outubro, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.
(Redação ONG News)